Tó Zé — O Mestre
Na Taverna existe um Rezingão. Marreta e teimoso, daqueles que primeiro estranham e só depois entranham. Mas, à medida que foi sendo conhecido, tornou-se impossível não admirá-lo.
Os laços de amizade que criou foram dados com nós de marinheiro — ou, no seu caso, de Fuzileiro — daqueles que jamais se desfazem, provando que, tal como o Rezingão da Branca de Neve, também este resmungão tem um enorme coração e é, acima de tudo, um tipo baril... encostado ao barril!

Quem apenas olhasse para a figura austera dificilmente imaginaria que aquele RAMBO duro e implacável, capaz de jogar paintball sem máscara, escondia um RABO macio e sensível, besuntado com pó de talco de emoções. Bastava falar da esposa, das filhas, de um amigo especial ou da própria Taverna para as lágrimas lhe aparecerem no canto do olho, mostrando que, por detrás da dureza, existe um homem profundamente emotivo.
É também frequente encontrá-lo encostado ao barril. Aliás, daqui a uns anos ainda há de sofrer de uma escoliose funcional-postural, depois de passar metade da vida com a coluna inclinada para a esquerda, naquela posição de barril a que já nos habituou e que será, talvez, uma das imagens de marca desta Taverna. Um dia, quando for para o Purgatório, haverá que pedir autorização à Nani para o embalsamar e deixá-lo exatamente no mesmo sítio, para que a imagem perdure para sempre. Naturalmente, será preciso encontrar forma de os pombos não lhe cagarem em cima, nem de as crianças mais curiosas lhe mexerem nos tintins.

Não foram certamente os seus lindos olhos que me convenceram de que deveria pegar na Taverna. Houve antes qualquer coisa, difícil de explicar, que me sussurrava ao ouvido que era nele — e na Nani — que aquele simples ponto de encontro para beber um copo poderia transformar-se em muito mais do que isso. O suor que lhe escorria pelo pescoço depois de montar uma esplanada ou mudar um barril era o reflexo de um homem que sempre acreditou mais nos atos do que nas palavras, fazendo da resiliência a sua principal arma de trabalho.

Foi assim que a Taverna se tornou um verdadeiro local de culto à amizade, ao convívio e à boa disposição. Uma espécie de terapia de grupo onde, no mínimo, um sorriso é sempre arrancado a alguém. E nisso, Tó Zé tem um papel absolutamente fundamental como anfitrião.

Com o passar do tempo, até a sua tosse passou a fazer parte da identidade daquele espaço. É quase música para os ouvidos de quem por ali anda, sinal de que está presente, embora um rebuçado Dr. Bayer nunca lhe tenha feito mal nenhum de vez em quando.
Para um tipo de meia-idade, ainda tem o seu charme. Andar lento, cabeça levantada, olhar confiante e, por vezes, um ligeiro assobio. Aí vai ele, como uma mistura de gigolo dos anos 80 e magnata russo, alheio aos comentários dos invejosos de camisolas com caveiras e chinelos de enfiar no dedo. Ainda capta alguns olhares indiscretos de moças associadas da ACAPO, deixando-o inchado como um faisão em época de acasalamento.
A sesta é um ritual sagrado no seu dia a dia. Aconteça o que acontecer na Taverna, entre as 14 e as 15, Tó Zé desaparece tipo ninja e lá vai ele para o conforto do colchão ortopédico, como um bebé que ainda chupa no dedinho e prefere supositórios ao xarope para a tosse.
A sua conhecida mania de fazer exatamente o contrário daquilo que lhe dizem é, muitas vezes, capaz de levar qualquer um ao desespero e a pedir mais umas imperiais. Mas é precisamente essa mesma teimosia que também ensina a acreditar nas próprias convicções, a pensar fora da caixa, a ignorar regras quando é preciso, a sair da zona de conforto e a arriscar ir mais além.
Por vezes, a língua é mais rápida que a inteligência, o que cria alguns dissabores entre os demais. Mas nada que um verdadeiro amigo já não saiba e perante o qual não tenha aprendido, simplesmente, a assobiar para o lado.
Na história da Taverna, Tó Zé não é apenas o homem atrás do balcão. É um dos grandes responsáveis por ter transformado um café de bairro num lugar onde nasceram amizades, memórias e um verdadeiro sentido de comunidade.

Um homem que muitos se orgulham de ter conhecido — e eu sou um deles.
Talvez por isso alguns lhe chamem, simplesmente...
Mestre!




